sexta-feira, 9 de junho de 2017

Por uma sociedade que não odeie as mães

 por Juliana Gonçalves para o Calle2

"Historicamente na vida de muitas mulheres negras, a figura masculina provoca mais dor do que aconchego ou qualquer tipo de proteção" 

Jovem, mãe, negra e solteira. Isso é parte do que sou. Sei que falo de uma experiência coletiva sob uma ótica particular. Dói saber disso. Somos muitas mães solteiras, sobretudo negras. Ter filho é um divisor de águas na vida de muitas mulheres. O pesar vem quando a maternidade nos separa por vezes do mundo, das pessoas. Mas não precisa ser assim. Não deve ser.

Vou começar dizendo que ao meu ver o problema nunca foi ser  “solteira’’. Nunca fui uma mulher que sonhava com casamento. Acredito que não ter um companheiro não seja a grande questão aqui. O problema é criar um filho de um pai que pouco se importa ou nada se importa. O que inclusive pode ocorrer em relações onde o homem está lá fisicamente presente.

Venho de uma família onde isso é exceção. As que vieram antes de mim, mãe, avó, bisavó de forma geral respeitaram o que foi traçado pela tradicional família brasileira. Onde os casamentos são mantidos porque a mulher tudo suporta. E caso o homem morra antes de você, muito mais do que tristeza, o luto é feito de libertação.

Depois de viúva, as mulheres não casam mais. O casamento é uma obrigação que já cumpriram. Ter um homem na vida é um fardo que já não necessitam. Se relacionar dentro da ideia de amor romântico nunca foi uma realidade e, se foi necessidade em algum momento juvenil, foi algo esmagado e extinto pela rotina, pelo árido da vida.

Quando minha mãe diz ‘não’ a isso tudo e pede a separação na década de 90, a instituição família treme. Esse enorme ‘não’ que ela disse à vida de resignação era na realidade um enorme ‘sim’ para ela mesmo. Ela passou a se enxergar como alguém que era digno de ser feliz. Mesmo assim, ela só conseguiu fazer isso quando eu e minhas irmãs éramos crescidas. Antes disso ela fez o que esperam de nós: viveu para mim e minhas irmãs e se anulou quase que completamente.

Meu pai já era ausente dentro de casa. E o divórcio só afastou ainda mais essa figura masculina de nós. Quando cresci, sabia que não queria um casamento, essa obrigação, mas queria uma família, um filho talvez.


"Quando engravidei, estabeleci um pacto de confiança com o pai do meu filho. Não queria ser mãe só, estabelecemos que mesmo separados enquanto casal, faríamos isso junto. Não foi assim."

Dei todo esse contexto porque na realidade das mães em carreira solo é muito comum a naturalização da ausência masculina e culpabilização da mãe pela abstenção da paternidade do homem.  É importante falar o óbvio às vezes e para toda mãe sozinha há sim, na grande maioria das vezes, um pai folgado, egoísta que simplesmente não quer estar lá.

Historicamente na vida de muitas mulheres negras, a figura masculina (pai, namorado, marido) pauta mais dor do que aconchego ou qualquer tipo de proteção. Ainda não sabemos nos relacionar. E o homem negro pouco aprendeu a se relacionar sem podar, sem destruir. Ele também por vezes é massacrado. Escrevi um pouco sobre isso nesse texto intitulado “Corporeidade masculina e a crise do afeto”.

Retomando, aqui falo de pai e mãe porque é assim que se estabelece nesse caso essa relação para mim. Mas isso vale para qualquer configuração de família. Não há desejos de paternidade/maternidade sufocados por causas externas. Quem quer ser presente é, quem quer doar seu tempo doa, quem não tem dinheiro, dá o que tem. Seja o tempo, o afeto, a paz.

"Na sociedade contemporânea, estabeleceu-se que criar uma criança é obrigação de pai e mãe. Quando um deles se ausenta, a responsabilidade recai de maneira integral nas mãos do que ficou. E quem fica historicamente são as mulheres."

Esperam delas que reneguem o mundo. Que se virem. Já quando o homem fica ele é louvado. ‘Um paizão’, dizem ao ver o cara fazendo o mínimo. Sem o pai presente no cotidiano, tenho sorte de ter uma rede preciosa de apoio, mas nunca será suficiente porque a responsabilidade é apenas minha.

Esse peso de ser a única responsável pela criação de uma criança dá uma angustia sufocante. Um peso que parece extremo demais para uma pessoa só. E é. Criar uma criança, como já ensinaram meus ancestrais, é trabalho da aldeia toda. Porém, nessa sociedade patriarcal e machista que vivemos, essa aldeia é composta de uma só mulher, por vezes triste e sempre cansada.

A sensação é de impotência. O problema não é apenas a dificuldade que é criar um ser humano são de mente e corpo, mas de continuar sendo humana enquanto sou mãe.

A minha humanidade é constantemente descartada e minhas necessidades ignoradas. Sou apenas o  ser que trabalha e o ser que sustenta.  E o trabalho? Ah, o trabalho. Basta ler o desabafo que Beatriz Marinelli, mãe e ativista, postou nas redes sociais sobre como é tratada em entrevistas de emprego.






Se é difícil trabalhar, o que dirá sonhar e ter projetos concretos que dialoguem com a minha subjetividade e que nada tenham a ver com o fato de ser mãe. É fato que a maternidade me preenche de tantas formas. Sim, é muito amor, mas também é muita renúncia.

Se me permito sonhar um pouco, é por conta dessa rede que criei, mas a realidade é que mesmo assim consigo apenas sobreviver. Explico: graças à rede consigo trabalhando em janeiro, quando não há atendimento nas creches de São Paulo. Mas se um dia a mãe resolve que precisa curtir um happy hour, sair para se distrair um pouco, um sambinha de leve, uma paquera, uma transa, com quem fica a cria?
"Quem cuida do seu filho quando você precisa se cuidar? Quem cuida para você estudar, ir fazer um curso diferente, terapia, aula de dança ou de língua estrangeira? Mesmo que ninguém fale, fica submetido que quem pariu Mateus, que o balance sozinha."

“Deixa essas coisas pra depois, espera o menino crescer”. “Você sabia que ia ser assim quando escolheu ser mãe’’ são frases recorrentes que mães costumam ouvir. O dolorido é saber que o nível de renúncia que esperam das mães é absurdamente maior do que o que esperam dos pais.
E como falar em escolha real no contexto em que vivemos? Onde a maioria das mulheres não tem acesso a métodos contraceptivos, quando muitos homens dentro de relacionamentos forçam a barra para transar sem camisinha, quando o aborto seguro não é uma opção quando se é pobre?
No meu caso, quando ouço que escolhi isso penso: não, eu escolhi ser mãe, mas não escolhi fazer isso sozinha. Enfim….

Certa vez tentei explicar para pessoas próximas como para mim sair para dançar às vezes, ter um tempo sem o meu filho, é uma questão de sanidade. Mas quem liga se você está sã ou não? Se tiver amargurada e vivendo um quadro de depressão, desde que não fale sobre isso, tudo bem…

Sei que há grupos de mães que se conversam e cuidam uma das crianças das outras para que haja momentos de cura e liberdade como esse que citei. São poucos ainda porque temos muita dificuldade de nos deixar cuidar. De entender que não dá para ser boa mãe doente, triste, desiludida. De deixar a culpa de lado.

Ao meu redor conheço muitas mães negras de pais ausentes que carregam o mundo nas costas. Não é normal ter que suportar esse peso sozinha, não pode ser.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE (2013), os dados sobre estado civil em mulheres de 18 a 59 anos apresentou que 48% das mulheres brancas são casadas, enquanto as mulheres negras são 33,3%. 55,1% delas são solteiras.

Os dados sobre Nascidos Vivos do DATASUS (Sistema de Informação do Ministério da Saúde) também reafirmam o que percebemos por aí. Entre as mulheres que tiveram filhos em 2013, ao contar raça/cor vemos que as negras solteiras representaram cerca de 43,6%, enquanto as mulheres brancas 34,8%.


Embora todos os textos dessa coluna versam sobre a minha existência no mundo vista de forma coletiva, esse é o texto mais autoral que escrevo. Um desabafo e um pedido que pode servir para melhorarmos o sentido de comunidade: olhem para as mães que estão ao seu redor! Ofereça ajuda, insista. Esteja lá. Cuide dela, nas pequenas coisas.


"Olhe para as mães lembrando que são pessoas que sonham e têm diversos desejos. Não alimentem essa estrutura machista e misógina que anula a mãe do convívio social. Crie espaços pensando nas mulheres que têm filhos."
Dos lugares de lazer a espaços de militância. Vá visitá-las, chame para passeios que englobem seus filhos e filhas.

No ano passado, no dia 25 de julho  (Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha) foi organizada uma marcha pelas mulheres negras de São Paulo. Durante todo o evento havia uma creche para crianças à disposição das mães que queriam estar presentes na marcha. A ideia surgiu de uma mãe e militante chamada Fernanda Gomes de Almeida. A mesma Fernanda, junto com uma porção de outras mulheres negras lésbicas organizam uma festa chamada “Sarrada no Brejo”, onde durante toda a balada, as mulheres com filhos/as podem deixar seus bebês na creche coletiva. São algumas as iniciativas que ajudam mães, mas ainda é pouco.


E você irmã negra sem filhos, precisamos muito do seu apoio. Faça dessa questão algo importante para você também. Paute isso nos espaços que nós mães não estamos porque não podemos levar nossos filhos ou não temos com quem deixá-los. Paute isso quando namorar o cara descolado cheio de filhos, que não paga pensão, que não dá suporte emocional nenhum, mas vive no rolê.


Quando não tinha filho não fiz isso. Nem ao menos tinha ideia da complexidade e solidão envolvidas numa situação como essa. Um afago sincero para as mães que nunca ajudei por pura falta de sensibilidade e ignorância.


As mães de hoje estão criando o nosso futuro, que precisa ser melhor e mais harmônico. Pessoas doentes não criam pessoas sãs. Precisamos cuidar de quem cria o nosso amanhã.

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Saiba mais
Fonte de dados: Blog População negra e saúde, alimentado pela brilhante Emanuelle Goes
Para conhecer: Coletiva Luana Barbosa, composto por Fernanda citada no texto e um monte de mina foda

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Fístula Obstétrica e a violação de direitos

 Emanuelle Goes para Cientista Feminista

A fístula obstétrica consiste num orifício entre e a vagina e a bexiga e/ ou reto, resultante da necrose dos tecidos por compressão da cabeça do feto numa circunstância de trabalho de parto demorado (UNFPA, 2013).  Esta complicação ocorre devido ao acesso precário aos serviços de saúde no parto, sendo que mulheres que moram em zona rural, sem serviços e sem transporte são as mais expostas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a fístula obstétrica afeta mais de 2 milhões de mulheres no mundo, principalmente nos países localizados na África e na Ásia. O perfil de mulheres mais afetadas inclui mulheres e meninas em situação de pobreza, com baixa escolaridade e que na maioria das vezes vivenciam o casamento forçado e a gravidez prematura.

Mulheres e o isolamento social

São várias as consequências, desde incontinência urinária e/ou fecal constante através da vagina, causando um odor desagradável e podendo gerar ulcerações ou queimaduras nas pernas, ou até mesmo consequências mais graves como a morte materna, pois a situação pode levar a uma septicemia (infecção generalizada). Após a complicação, as mulheres e meninas com fístula obstétrica vivenciam o isolamento social.

As mulheres também são afetadas psicologicamente por conta dos danos causado pela fístula e da rejeição social e isolamento. Muitas acabam por ser abandonadas pelos maridos, pela família e pela comunidade, que as discriminam por não aguentar o odor constante da urina e das fezes.

Os maridos abandonam as mulheres/meninas para procurar outra mulher “saudável”, e essas não podem retornar à família de origem porque dentro deste contexto cultural as mulheres pertencem ao marido após o casamento, e o destino delas é determinado por ele.

O filme “Dry”

Dry é um filme nigeriano que trata sobre o assunto da fístula obstétrica e tudo que cerca esta complicação: o casamento forçado de meninas, a gravidez precoce, a solidão e a discriminação, assim como o ativismo pelos direitos humanos de mulheres e meninas que estão nesta situação.

O filme narra a história de uma menina de 13 anos de idade, cujos pais pobres, sem escolaridade, a oferecem para casar com um homem de 60 anos, que constantemente a estupra. A garota fica grávida e sofre fístula obstétrica após o parto. Consequentemente, é abandonada pelo marido e discriminada pela sociedade. A médica, outra personagem que também sofreu na adolescência, salva outras mulheres jovens sob as mesmas circunstâncias.

Dry_film_screenshot
Imagem: Cartaz do Filme Dry
São muitas as questões que merecem ser discutidas no filme, mas duas passagem destaco aqui. Primeira: quando a menina está sozinha, uma das esposas do marido que a abandonou leva comida pra ela, a encontra chorando e pergunta o que ela quer: “quero minha infância de volta, queria sorrir novamente, cantar, sentar com meu pai e minha mãe, você pode me dar isso?” indaga a menina. A segunda passagem que vale a pena ser destacada é quando a medica nigeriana que foi vítima da fístula obstétrica diz, ao denunciar a situação de descaso/violência/violação no parlamento: “antes de ser mulher somos seres humanos, não somos objetos e queremos viver nossa infância de forma plena”. 

Destaco estas duas passagens no diálogo com o texto para evidenciar o quanto as violências causadas pelas desigualdades de gênero expõem as mulheres desde sua infância, com o destino traçado por culturas machistas e patriarcais.

Medidas de Erradicação da Fístula Obstétrica

Estima-se que existam pelo menos dois milhões de mulheres afetadas por esta condição, e a cada ano há entre 50 mil e 100 mil novos casos, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas. A fístula obstétrica pode ser considerada um indicador de desigualdade de gênero, de saúde e de pobreza.

São necessários investimentos de diversas ordens para a erradicação da fístula obstétrica, incluem medidas relacionadas aos serviços de saúde, como ampliação de serviços de saúde reprodutiva, serviços especializados e treinamentos de profissionais de saúde e dos médicos para a realização da cirurgia (que tem mais de 90% de sucesso). A cirurgia para tratamento da fístula obstétrica consiste em fechar o orifício criado durante o longo parto, possibilitando que a bexiga volte ao seu funcionamento normal.

A garantia da igualdade de gênero e equidade de direitos para mulheres e meninas, com a erradicação do casamento forçado e do analfabetismo e a eliminação da pobreza. Segundo as Nações Unidas o número de mulheres e meninas casadas durante suas infâncias poderá chegar a 1 bilhão em 2030. Neste sentido, a eliminação do casamento infantil faz parte da meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (2015-2030), juntamente com a eliminação de outras práticas nocivas às mulheres.

Desta forma, é importante relembrar das agendas de Cairo (Conferencia Internacional sobre População e Desenvolvimento, 1994), que asseguram a integridade à saúde sexual e reprodutiva de mulheres e meninas, e de Pequim (Conferência Mundial sobre as Mulheres, 1995) com vistas às correções de injustiças sociais e reprodutivas.

Visibilidade a todo tipo de violência e violação das Mulheres no Mundo. Se a tradição, a cultura, ou qualquer outra coisa neste sentido, viola o direito à vida e a dignidade humana, contradizendo direitos humanos fundamentais de mulheres e meninas, estes devem ser erradicados. E se nós vendamos os olhos para situações como estas estamos extinguindo a humanidade.

Referencia
UNFPA. Estratégia Nacional de Prevenção e Tratamento de Fístula Obstétrica. Moçambique. 2013.
UNFPA. Mensagem por ocasião do Dia Internacional pelo Fim da Fístula Obstétrica. 2015.

Link

terça-feira, 4 de abril de 2017

Hierarquias Reprodutivas (1): Mulheres Grávidas Encarceradas, menos Adriana

Emanuelle Goes *

Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
Carlos Drumond de Andrade 


Foto extraída do site: http://carceraria.org.br/wp-content/uploads/2015/11/gravida_presa-300x181.jpg
Por conta da prisão de Adriana Ancelmo e da sua soltura, ficando em prisão domiciliar, a pauta sobre grávidas encarceradas ganhou certa visibilidade nas grandes mídias. No entanto, esta é mais uma das pautas que o movimento de mulheres negras vem apresentando há um tempo, pauta dentro da agenda dos direitos humanos, direitos reprodutivos e justiça reprodutiva.
A partir da reflexão de Laura D. Mattar e Simone G. Diniz (2012) que defendem a ideia de que “há hierarquias reprodutivas, e que elas indicam como algumas maternidades são mais, ou menos, legítimas e aceitas socialmente do que outras – impactando o exercício de direitos humanos pelas mulheres”, podemos traçar como as violações de direitos acontecem com as grávidas no sistema prisional.

Por que só Adriana ou mulheres com o perfil semelhante ao dela podem ter assegurado o exercício dos direitos humanos e constitucionais em sua plenitude? Porque há uma ideologia sobre a maternidade e/ou a reprodução, que é pautada pela estrutura sexista, racista e classista, modelo este que marginaliza e discrimina.
Nos últimos anos, o encarceramento de mulheres cresceu 570%, sendo que duas em cada três presas são negras. O sistema carcerário feminino é composto em sua maioria de mulheres negras e pobres. (CRIOLA, 2016)
Dentro do sistema prisional, são as mulheres negras que encontram mais dificuldades de acesso a seu direito de defesa e demais direitos estabelecidos nas leis. O tratamento desigual, o encarceramento desproporcional e as seguidas violações de direitos humanos, incluindo o direito à saúde, nas prisões brasileiras produzem situações trágicas.
Em 2015, um caso de violação total de direitos aconteceu no Estado do Rio de Janeiro, quando uma mulher encarcerada na penitenciária feminina Talavera Bruce, foi obrigada a fazer o próprio parto dentro de uma solitária, apesar dos gritos de socorro de outras presas da cela ao lado, a gestante saiu do local com o bebê, já nos braços, porém ainda ligado ao cordão umbilical.
Na mesma unidade, para onde são encaminhadas as presas grávidas, uma interna entrou em trabalho de parto, mas a ambulância não chegou a tempo e ela acabou dando à luz no local. Em razão da falta de estrutura, o bebê faleceu.
O sistema desumaniza as grávidas, a gravidez e suas crianças que já nascem privadas de liberdade, contrariando a constituição que reserva a liberdade como princípio fundamental, as crianças ali já nascem com a sua cidadania ceifada.
Segundo a pesquisa “Saúde materno-infantil nas prisões”, liderada pela professora Maria do Carmo Leal, no estudo 80% das participantes eram negras, 67,2% jovens. O acesso à assistência pré-natal foi inadequado para 36% das mães, durante o período de hospitalização 15% referiram ter sofrido algum tipo de violência (verbal, psicológica ou física), apenas 15% das mães consideraram o atendimento recebido excelente e o uso de algemas na internação para o parto foi relatado por mais de um terço das mulheres (Leal et al., 2016).
A pesquisa foi realizada nos presídios de todas as capitais brasileiras e regiões metropolitanas e mostra que 65% das gestantes condenadas poderiam cumprir prisão domiciliar, por ter cometido crimes de menor poder ofensivo, como porte de drogas e pequenos furtos, e serem presas provisórias.
As experiências vivenciadas na maternidade ou na reprodução são demarcadas por desigualdades sociais, raciais, de gênero e classe, sendo assim não é possível transportar experiências de mulheres que fazem parte deste modelo ideal de maternidade, o que o Estado faz é garantir que Adriana e seu bebê exerça os direitos constitucionais e humanos em sua plenitude.

Pelo direito à saúde das mulheres encarceradas

Ação Civil Pública que obriga o Estado do Rio de Janeiro a garantir atendimento médico nos presídios femininos. A ação foi movida pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. A saúde é um direito garantido pela Constituição Federal. No entanto, no sistema prisional do Rio de Janeiro, o desrespeito a esse direito é tão forte que nem mesmo detentas grávidas em trabalho de parto recebem assistência. Saúde é um direito universal.
São violações sistemáticas de direitos que contrariam e descumprem normas nacionais e internacionais, tais como o artigo 196 da Constituição Federal que afirma: “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
A ação exige:
     Respeito à Constituição Federal, às leis e normas que garantem o direito à saúde das mulheres privadas de liberdade
     O urgente enfrentamento ao racismo, ao sexismo e as discriminações de classe social institucionalizados no sistema de justiça e no sistema prisional
     A garantia do acesso à saúde para todas mulheres privadas de liberdade!

Referências

MATTAR, L.D.; DINIZ, C.S.G. Reproductive hierarchies: motherhood and inequalities in women’s exercising of human rights. Interface - Comunic., Saude, Educ., v.16, n.40, p.107-19, jan./mar. 2012.

LEAL, M.C. et al. Nascer na prisão: gestação e parto atrás das grades no Brasil. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2016, vol.21, n.7, pp.2061-2070.

CRIOLA. Pelo direito à saúde das mulheres encarceradas! - http://www.alyne.org.br/content/pelo-direito-saude-das-mulheres-encarceradas 

* Doutoranda em Saúde Pública (ISC/UFBA), Blogueira, Enfermeira, Coordenadora do Programa de Saúde do Odara Instituto da Mulher Negra.