sábado, 19 de agosto de 2017

Rede de especialistas e ativistas em Justiça e Direitos Reprodutivos


👊A ideia é criar uma rede de pesquisadoras e ativistas pela justiça reprodutiva (direitos reprodutivos aqui será contemplado mais amplamente), em que possamos fazer releituras de conceitos e práticas sobre direitos reprodutivos e saúde reprodutiva, trazendo a discussão da Justiça reprodutiva para nós, pesquisadoras e ativistas no Brasil. Pensando em releituras das práxis e trazendo também a discussão interseccional e o racismo institucional como caminhos de olhar os direitos e suas violações.

👊A rede também servirá para pesquisadoras que precisem de suporte nas temáticas ou precisam construir seus temas, assim como para realizar as suas ações nos serviços de saúde nas diversas áreas de formação e ativistas que estão na luta por direitos. 

 Objetivo da Rede
👆 Colaborar com pesquisas e intervenções pela garantia da Justiça Reprodutiva e dos Direitos Reprodutivos
👆 Construir Construir bancos de dados com pesquisas na área
Identificar pesquisadoras(es) e ativistas
👆 Construir um espaço que possa contribuir na luta por justiça reprodutiva, garantia de direitos e de enfrentamento ao racismo, sexismo e outras opressões correlatas
👆 Colaborar com pesquisadoras na construção dos seus projetos de pesquisa (conclusão de curso, dissertação e tese)
👆 Contribuir com profissionais das diversas áreas sobre as práticas de saúde reprodutiva e saúde integral à mulher com foco no racismo, sexismo e outras opressões correlatas

Então, tenham interesse e respondam o questionário - https://goo.gl/cu5Dqk

Fale conosco -  Emanuelle Goes (emanuellegoes@gmail.com) Mariana Lima (marianapittalima@gmail.com) e Paula Gonzaga (paularitagonzaga@gmail.com)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Pela Vida das Mulheres Negras, vamos todas/os/es

Emanuelle Goes


“A noite não adormece nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia …”
Conceição Evaristo

Eu gostaria de escrever que não dormimos pra viver intensamente tudo de bom que tem a vida, mas a noite não adormece nos nossos olhos, porque vigiamos o racismo que fica na espreita, aguardando nosso cochilo. Não dormimos porque está sob nós o peso do racismo, em nossos corpos que se estende a comunidade inteira.

Na madrugada vigiamos na janela, tal como a lua que vigia, a demora do menino negro que não chega, o menino-filho-pai-irmão-vizinho-companheiro, a tormenta da espera, que seja mais uma vez o atraso: culpa do transporte ou porque a noite estava linda e se estendeu.

No Brasil estima-se que mais de 42 mil adolescentes de 12 a 18 anos poderão ser vítimas de homicídio nos municípios com mais de 100 mil habitantes entre 2013 e 2019 (UNICEF). E dos 30.000 jovens vítimas de homicídios por ano, 77% são negros. As mães dos filhos assassinados seguem a vida adoecidas, a saúde integralmente comprometida, vivendo na ausência de tudo.

A tripla ou mais jornadas de trabalho que não nos deixam dormir. Deita tarde para organizar a vida da família, o acesso a bens duráveis como a máquina de lavar roupa, que poderia contribuir para um cochilo, chega de forma lenta e hierarquizada até as mulheres, cerca de 66% das mulheres negras urbanas que são chefes de família não tem máquina de lavar, as mulheres negras rurais chegam a 90%.

Levanta cedo percorre a cidade por horas a fio para chegar no trabalho, a imobilidade urbana não nos deixa dormir, o uso do tempo não é favorável. São as mulheres negras sudestinas (15,5%) que perdem mais tempo no deslocamento da residência ao local do trabalho, mais de uma hora e meia, enquanto apenas 5,4% das mulheres brancas sulistas estão nesta situação.

E seguimos nós, o trabalho doméstico que para muitas ainda é sim uma realidade, pois cerca de 63% das mulheres são negras neste tipo de ocupação, que nós vê como “quase da família” para precarizar mais ainda o trabalho e incidir com sucesso o racismo cordial.

De acordo com o Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, apesar se sermos a maioria neste tipo de serviço, são as mulheres brancas (29,3%; negras 24,6%) tem mais acesso a carteira assinada. Reforçando o caráter estruturante da discriminação racial e do racismo que permanece e é fruto do regime escravocrata. Diante disso como dormir não é mesmo?

Atenta, com os olhos abertos, espaços públicos e privados são perigosos para nós, nossa integridade física, psicológica, sexual estão sempre em risco pela violência doméstica, pelos estupros, pela hipersexualização dos nossos corpos. Somos nós que mais morremos de mortes violentas neste país, a violência para nós é mais letal e nos últimos dez anos aumentou 54%. E estamos também mais expostas a violência sexual, somos 61%.

A nossa batalha começa cedo na busca por um serviço de saúde, quantas vezes, é na fila do SUS que vamos a aguarda o dia amanhecer e a vaga pra consulta. Sim, mais uma vez somos nós que esperamos mais tempo para sermos atendidas, começamos o pré-natal mais tardiamente e peregrinamos na hora do parto ou do abortamento.


Somos insurgentes, ressurgentes de cinzas. No entanto a luta pela vida das mulheres negras é a luta de todas as pessoas, é a luta por uma sociedade justa, igualitária e equânime para todos/as. Pois, a pirâmide social que demonstra o tempo inteiro que somos a sua base, nos revela que, o que impacta positivamente sobre nós, atingirá consequentemente, toda a sociedade, afinal somos a metade e criamos a outra.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O aumento da sífilis, mas ela sempre esteve entre nós

 Emanuelle Goes para o Cientistas Feministas


A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) que vem aumentando no Brasil nos últimos 10 anos, principalmente a sífilis em gestantes e a sífilis congênita, e isso tem chamado a atenção considerando que é um agravo que tem cura com tratamento de baixo custo.

SPN5
Material de Campanha Ministério da Saúde

Já identificando o aumento deste agravo, no ano de 2005, o Ministério da Saúde criou o Plano de Controle à Sífilis Congênita  que visava contribuir para a implementação do diagnóstico e tratamento imediato dos casos de sífilis materna e congênita, e da vigilância epidemiológica,  para que de modo geral o Brasil pudesse , em breve espaço de tempo, reduzir os casos de transmissão vertical da sífilis, como tem feito com outros agravos, principalmente o HIV (Diretrizes para o Controle da Sífilis Congênita, 2005).

No mesmo ano o Ministério da Saúde passou a considerar a sífilis na gestação uma infecção sexualmente transmissível de notificação compulsória justificado por conta da sua elevada taxa de prevalência e elevada taxa de transmissão vertical que varia de 30 a 100% sem o tratamento ou com tratamento inadequado (Informe Técnico Institucional, Cadernos de Saúde Pública, 2008).

O que estaria causando o aumento do agravo? Pela perspectiva da epidemiologia social, a hipótese para o aumento da transmissão e infecção podem ser multicausais, ou seja, vários fatores associados podem estar mutuamente contribuindo para o aumento e permanência da doença.
  1. A falta da implementação em todas as esferas (municípios, estados, federal) da política de atenção integral à saúde da Mulher (PNAISM) criada em 2004;
  2. A baixa adesão do sexo protegido e a diminuição do uso de preservativos. Segundo a pesquisa do IBGE (2013) no Brasil cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva referem utilizar a camisinha em suas relações. Na pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, realizada em 2010, sobre as razões de não ter usado a camisinha nas relações sexuais, a confiança no parceiro foi a mais citada, 32% entre as mulheres e 35% entre os homens;
  3. Falta de acesso ao pré-natal ou um pré-natal inadequado;
  4. Ausência da penicilina nas farmácias básicas de saúde por conta do mercado da indústria farmacêutica (A nova cara da sífilis);
  5. A proibição da aplicação do medicamento (penicilina) em locais que não estivessem equipados para evitar um choque anafilático (até 2015) unidades básicas de saúde, por exemplo;
  6. A falta de adesão dos parceiros ao tratamento e;
  7. A falta de uma agenda mais incisiva e prioritária às populações vulneráveis considerando as iniquidades sociais, raciais e de gênero.
Logo em seguida apresento dados relacionados à sífilis congênita e na gestação

A série histórica (Figura 1) apresenta que a partir de 2007 começa a ser identificado o aumento dos casos em gestantes e em menores de 1 ano, por esse motivo que se torna obrigatório a informação dos casos de sífilis na gestação.

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Quando observamos a raça/cor e a região identificamos que as mulheres pretas do são as tiveram mais casos confirmados do agravo em todas as regiões.  Os atravessamentos regionais e de raça também estão presente no crescimento da sífilis no País (Tabela 1). Os dados evidenciam mais um agravo que atinge mais severamente as mulheres negras.

Sifilis caso confirmado
Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, 2017. 
Elaboração: Emanuelle Góes
O que pode ser dito com essa informação sobre realização do pré-natal é que estamos distante de cumprir o que o Sistema Único de Saúde preconiza, da mesma forma a Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher, que todas as gestantes têm direito a atenção integral e equânime na atenção ao pré-natal, parto, aborto e puerpério (Tabela 2).

Sifilis Pré-natal
Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, 2017. 
Elaboração: Emanuelle Góes

Pois, é no momento do pré-natal que oferta-se dentre uma gama de exames obrigatórios, o VDRL (Venereal Disease Research Laboratory) dentro do protocolo de atendimento ao pré-natal o teste deverá ser oferecido na primeira consulta de pré-natal para todas as gestantes, no primeiro trimestre de gravidez e no início do terceiro trimestre.

Sifilis parceiro
Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, 2017. 
Elaboração: Emanuelle Góes

Observa-se a baixa participação dos homens na adesão ao tratamento, menos de 13%, revelam os dados. A participação dos homens no percurso da saúde sexual e reprodutiva do casal ainda parece distante na sociedade, visto que as questões reprodutivas ainda ficam sob a responsabilidade das mulheres, apoiadas pelo imaginário social de que a reprodução é uma atribuição unicamente delas (Tabela 3).

Mesmo com o aumento das infecções sexualmente transmissíveis (IST’s) nos diversos grupos populacionais, questões como essas em uma relação estável, principalmente, são consideradas intocáveis, quase “tabu”, pois é mexer com o campo afetivo-sexual dos casais em torno principalmente da fidelidade, pois é em torno disso que se discute o uso ou não da camisinha, restringindo a autonomia das mulheres na tomada de decisão pelo sexo seguro.

Uma coisa é certa, a sífilis sempre esteve presente na nossa sociedade, desde as grandes navegações e explorações de territórios e povos. Na década de 30 nos Estados Unidos da América a população negra, principalmente os homens negros, eram utilizados como cobaias para experimentos sobre a doença e suas manifestações, no sentido de descobrir a cura. “O tratamento da sífilis, era negado para centenas de homens negros no Alabama para que os médicos pudessem seguir as consequências da doença e, mais tarde, dissecar seus corpos.” (Medical Apartheid, 2007), mas isso dá pano pra manga para outro artigo.

Nos dias atuais o que observamos o ressurgimento das IST’s e de forma mais potente muito provavelmente por conta da reinfecção e do uso sem controle dos antibióticos (Gonorreia, sífilis e clamídia resistentes: não dá pra relaxar). Para além disso, temos populações que estão mais expostas a sífilis e outros tipos de IST’s, pessoas que vivem em total ausência de direitos como as populações em situação de rua, pessoas em uso abusivo de drogas e populações privadas de liberdade, que em sua maioria são negras e pobres.

Referencias
BRASIL. Secretaria de Estado da Saúde SES-SP. Serviço de Vigilância Epidemiológica; Coordenação do Programa Estadual DST/Aids-SP; Coordenadoria de Controle de Doenças CCD. Sífilis congênita e sífilis na gestação. Rev Saúde Pública, v.42, n. 4, p. 768-72, 2008.
DINIZ, S. G. Direitos sexuais, direitos reprodutivos. In: Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado: uma década de mudanças na opinião pública. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2013.
HARRIET A. WASHINGTON. Medical apartheid: The dark history of medical experimentation on black americans from colonial times to the present. 2007.