segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Mama África, a minha mãe, é mãe solteira

*Emanuelle Goes


“Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia”
Trecho da Canção de Chico César


A imagem ao lado apresenta sobre a tal realidade das mulheres negras, em que a solidão é um fato concreto e ser mãe solteira também, é o que vemos em nossas famílias e nos dados estatísticos, no entanto ser mãe solteira não é um destino e nem algo determinado em nossas vidas, como a campanha publicitária ao lado tenta apresentar, mas consequências do racismo e do sexismo atuando historicamente de forma ativa sobre nós, com assimetrias de gênero (entre os homens negros) e de raça (entre as mulheres brancas). 

Voltando no passado para contextualizar o cenário atual, ainda na Primeira Republica, tem uma pesquisa que retrata como as mulheres negras viviam naquele momento depois do regime escravista, “A paternidade não reconhecida foi um fenômeno comum na sociedade brasileira, se, juridicamente, a sociedade expressava a descendência de forma patrilinear, o sentido de pertencer a uma família, nas camadas populares, dava-se, essencialmente, pelo lado materno” (FERREIRA FILHO,2003, p. 156). Já nesta época tendo a mulher que arcar quase sempre sozinha com a responsabilidade financeira e moral na criação dos filhos, soluções extremadas como o aborto, o infanticídio e o abandono dos recém-nascidos impunham-se como fatos recorrentes, numa época em que os métodos contraceptivos eram praticamente inexistente.

Em uma situação de extrema exclusão e marginalidade da população negra, tendo o homem negro fora do mercado formal de trabalho, a mulher negra viu-se obrigada a assumir o papel de mantedora da família, isso é outro aspecto das mulheres serem as responsáveis pelo domicilio (NEPOMUCENO, 2012). Segundo Ruth Landes, em sua pesquisa realizada na década de 1930 em Salvador, se surpreendeu sobre o nível de pobreza de boa parte das mulheres negras, religiosas e chefes de família, que não tinham maridos para dividir as despesas da casa nem a responsabilidade na educação dos filhos (NEPOMUCENO, 2012). 

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE (2013), os dados sobre estado civil em mulheres de 18 a 59 anos, apresentou que 48% das mulheres brancas são casadas, enquanto as mulheres negras são 33,3% para esta mesma situação, e 55,1% das mulheres negras são solteiras.

Segundo Pacheco (2013) as mulheres negras fazem parte do imaginário da erotização, do sexo, sendo naturalizada no “mercado do sexo” e em contraposição das mulheres brancas que nesse mesmo imaginário são pertencentes a “cultura do afetivo”, ao “mercado matrimonial”, ou seja, do casamento e da união estável.

E sobre a égide das relações desiguais de gênero, os homens classificam suas parceiras com categorias e identidades sociais, hierarquizando moralmente as mulheres, dividindo elas em “as de família” e as “sem vergonha”, neste sentido os valores morais definem as mulheres e para classificar as mulheres os homens as observam desde os gestos, como a fala, espaços frequentados ate as redes de sociabilidade, assim como as características sociodemográficas como idade, status social e raça/cor (MACHADO, 2009). Esta classificação será importante para os homens que alem de definir o tipo de relação, definirá a escolha e uso do método contraceptivo, por exemplo.

Os dados sobre Nascidos Vivos do DATASUS (Sistema de Informação do Ministério da Saúde) demonstrou que as mulheres que tiveram filhos em 2013, ao desagregar por raça/cor, as mulheres negras solteiras representaram cerca de 43,6%, enquanto as mulheres brancas 34,8% (Figura 1).
Nota: Sistema de Nascidos Vivos/Datasus/Ministério da Saúde - 2013

Este tipo de situação onde as mulheres são responsáveis/chefe de família e seguem sozinhas neste percurso impacta nas condições de saúde e no acesso aos serviços, segundo os dados da Pesquisa sobre Mulheres Negras e Brancas e o acesso aos serviços preventivos de saúde: uma análise sobre as desigualdades, 75% das mulheres brancas tem um acesso ruim para a composição familiar mãe com filho, e as mulheres negras chegam a 79% para o mesmo estrato de acesso ruim aos serviços preventivos de saúde da mulher (GOES, 2011). 

Entretanto as mulheres negras neste modo de vida como chefes de famílias, reconfiguram a orientação de uma sociedade, para uma outra sociedade matriarcal, que por vezes é um fado pesado, no entanto é um lugar que gerou/gera uma nova forma de vida para a população negra nas comunidades, nos espaços religiosos e no movimento negro e de mulheres negras. 

Referencias:

NEPOMUCENO, B. Protagonismo Ignorado In: PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Maria. Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2012, 555p.

PACHECO, A. C. L. Mulher negra: Afetividade e solidão. Disponível em: <http://www.edufba.ufba.br/2013/12/mulher-negra-afetividade-e-solidao/>. Acesso em: 21 ago. 2015. 

MACHADO, P. M. Muitos pesos e muitas medidas: uma análise sobre masculinidade(s), decisões sexuais e reprodutivas. In: Sexualidade, reprodução e saúde. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2009. p.534.

GOES, E.  F. Mulheres Negras e Brancas e o acesso aos serviços preventivos de saúde: uma análise sobre as desigualdades. 82f. 2011. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2011.

FERREIRA FILHO, A. H. Quem pariu, que balance! Mundos femininos, maternidade e pobreza Salvador, 1890 - 1940. Salvador, CEB, 2003.

*Blogueira, Enfermeira, Militante do Movimento de Mulheres Negras, Pesquisadora em Saúde das Mulheres Negras, Doutoranda em Saúde Pública ISC/UFBA

2 comentários:

  1. De fato Manu, se além de tudo isso descrito por você, associarmos ao preenchimento da variável "nome do pai" no SINASC, estratificado por raça/cor, teremos um bom resultado... farei isso!

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    1. Maravilha, vamos melhorar a informação, qualifica-lá!! Bjs

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